ELOS DE ELA
para Natinha
A que me lava,
a que me chama,
a que me dorme,
a que me dança:
ela, com pétalas íntimas,
destila o sol só
para anoitecer nua
e me dizer os seus escuros:
ela, a que mora na Sibéria,
só pelo prazer da distância

ELOS DE ELA
para Natinha
A que me lava,
a que me chama,
a que me dorme,
a que me dança:
ela, com pétalas íntimas,
destila o sol só
para anoitecer nua
e me dizer os seus escuros:
ela, a que mora na Sibéria,
só pelo prazer da distância
Quando morrem, os cavalos — respiram,
Quando morrem, as ervas — secam,
Quando morrem, os sóis — se apagam,
Quando morrem, os homens — cantam.
Velimir Khlébnikov (poema de 1913)
Tradução: Haroldo de Campos
Vejam abaixo o email que recebi do amiguirmão André de Leones me dando uma ótima notícia:
ManoWesley Peres está entre os 51 classificados para a segunda etapa do Portugal Telecom. É bom lembrar que, de uns tempos pra cá, o referido prêmio passou a aceitar autores de países de língua portuguesa, e não só brasileiros.
Você merece, mano. Parabéns.
Abraços do
–
ANDRÉ DE LEONES
“quanto mais o texto é plural, tanto menos eleserá escrito antes que eu o leia [...](nele) as redes são múltiplas e jogam entre elas, sem que nenhuma possa sobrepor-se às outras esse texto é uma galáxia de significantes, não uma estrutura de significados; ele não tem começo; ele é reversível; tem-se acesso a ele por múltiplas entradas, nenhuma das quais pode ser, com certeza, considerada a principal; os códigos que ele mobiliza se perfilam a perder de vista; eles são indecidíveis (…); desse texto absolutamente plural, os sistemas de sentido podem se apropriar, mas seu número não será jamais fechado”.
(Roland Barthes)
Então que se chega a um momento em que não se tem nenhuma transcendência à mão, em caso de urgência. Sem aprender, de repente se sabe que tudo é imanência até que não se haverá o manuseio, nem da vida nem da morte. Enquanto, vivo a descoberta de que não há o de fora ou o de dentro. Que há um corpalma em desagregação de homem que se espalha pela vida. Estou aqui, de novo, no 502, Setor Bela Vista, Goiânia (lembra-se daqui manandré, divertidos dias gargalhando do inferno?), e fico fazendo a coisa mais boba que é olhar pela janela e pensar num meio de voltar ao menos a ter um medo, pois que de medos se fundam transcendências. Mas não há volta, ou, somente existe voltas. Sempre voltando pra casa, tal um Sísifo que sem desafiar deus algum condenado está ao imenso escuro de um sol ardendo-lhe as vértebras. Algum dia abandonarei as metáforas, sabendo, enfim, o nome do que me dói.
foto: amigos em minha casa, em Catalão, incomodados com o barulho ensurdecedor provocado por Júlia, a tartaruga da Sofia
A literatura é o mais triste caminho que leva a tudo, escreveu Breton. A literatura tem função: negativizar a vida, mas não como uma foto é o negativo de uma coisa qualquer. A literatura nem um espelho delirante é. Negativizar a vida reside em enviar palavras-adentro das moléculas de um corpo humano. Enfiar moléculas de um corpo humano dentro das palavra é outro modo. Então que poderíamos dizer que a função da vida é negativizar a literatura. Vida e literatura, cobra engolindo-se pelo rabo. Essa semana tentei virar budista, fiz força que nem que por sobre o vaso. Nem deu. Tenho moléculas ocidentais, além do que Javé está me vigiando, que é sua especialidade, conforme me ensinaram. Mas há um proto-budista em mim, no sentido de que sinto um conforto ao escutar a palavra dissolução.
desenho: Moça empurrando um carrinho
Catalão. Domingo. Meio-dia e dez. Deus dormindo. O Diabo em seus cabelos. A solidão é o heterônimo do silêncio. E o silêncio, agulha de costurar e descosturar remembranas, coisa-memória. Não quero eternidades, nem por isso um copo de mar me serve pra alguma coisa. Trabalho em um outro livro, que não As pequenas mortes. Neste outro, me proponho a escrever o corpo feminino. Surfar a superfície do corpo feminino, com ou sem palavras… Ops, Deus acordou e é Catalão e é Domingo.
foto: Sofia olhando para foto de Wesley e Renata
Lendo psicanálise. freudlacanmillerwinicottetc. Tese obriga isso. Profissão também. Obrigado nada. Escolhi isso, porra. Júlia, tartaruga de Sofia, continua deixando eu-lélé. Tartarugas, barulhentas mesmo. Ninguém acredita em mim. Pensam que-mim, louco. Hoje cedo briquei com filhinha minha Sofia, dona-mãe da Júlia-a-barulhenta. Organizamos um concurso de beleza. Participaram 857 Barbies. 1fusca rosa. Um pote (coisa da Sofia, eu não sou louco, como já expliquei). O pote foi o vencedor (coisa da Sofia, pô, já avisei).
Depois, li 5 páginas do manifesto surrealista. Depois, 2 páginas de Raízes do Brasil. Depois, 10 páginas da biografia do grande Aknamatòv Minkaiev (coisa da Sofia, claro)… não vai dar pra continuar o post, a tartaruga não me deixa concentrar…
A voz do avô e do irmão, incrustada na superfície dessa coisa óssea: memória. A memória e seu outro nome, esquecimento, invenção de vazios sólidos, complexos, flutuação de afetos que desistiram da procura por palavras. Deus, no máximo a circulação dessas coisas improváveis, um desses blocos efêmeros que pronunciam, sem qualquer uso de palavra, a notação de nossas nervuras originárias, ou seja, que acabaram de ser inventadas pela circulação, no mundo, do sem-nome.
Nada nunca teve lugar, senão o lugar, senão a invenção do que já existe. Não é preciso levantar templos para essa falta de lugar, esse anti-útero (que nem anti é). Desenraizar de tudo que lhe disseram ser origem ou destino. Não fiz nada disso e, por isso, minha medula cultiva esse útero-terror (todo útero é isso), a que deram o nome de origem ou de mistério.
Semelhança sem ter com que se assemelhar. Rasura do que não foi escrito. Nomes adequados, quase, para a circulação-mundo. Escrita como exercício de acolhimento da angústia, desistir de abrangê-la ou refutá-la. Isso não me salvará de nada. Salvar-se de quê?
Estou hoje em Goiânia, essa extensão terreno afeto, aqui se inscreve os meus mortos. Mais um viaduto será levantado e a cidade ficará mais estranha, com esse elefante minério instalado nas ruas. Da janela do 502, do edifício Fontainebleau posso ver a terra vermelha de onde se levanta essa máquina mortaimóvel, seu esqueleto, prótese de alguma coisa que falta nessacidade e que continuará faltando.
A Sofia continua adorando sua tartaruga, que se chama Júlia. Eu, não me acostumando. Tartarugas fazem muito barulho.
Aliás, coisa que detesto é natureza. Pra que inventaram isso? Tudo que vejo de mais belo são concretos e aço e o ar tóxico e as pessoas, desnaturadas, com seus corpos recobertos de estrelas e da cor caleidoscópia da angústia.
A loucura existe e os homens ainda terão de admitir. Não existe é origem, ou um solo sub, onde entre suas curvas se esconde a criança. A criança caminha na superfície, em-seu-para-sempre carregando os seus mortos e os seus afetos. Portando nos olhos o não do avô e a voz do irmão na velocidade aquática dos sonhos. A voz do avô e do irmão, incrustada na superfície dessa coisa óssea: memória.